Editorial

     


         



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Revista Poder & Cultura, Vol.3, Nº5, Jan. - Jun. 2016, apresenta neste semestre uma edição muito especial para o seu público leitor. Para comemorar o seu terceiro aniversário de publicação, a revista ganhou uma nova logomarca e um novo projeto gráfico que procuram representar e sintetizar a sua missão acadêmica de promover o desenvolvimento e a divulgação da discussão sobre as relações históricas entre poder e cultura ao longo dos séculos, e de buscar ter na cultura e na educação instrumentos de conscientização política crítica e importantes alicerces na luta pela conquista de uma consolidação plena da democracia e da cidadania em nosso país que, infelizmente, encontra-se em um momento tão delicado e difícil de sua vida nacional.
Além do novo design, nosso periódico tem a honra de contar, a partir da presente edição, com a presença e participação inspiradoras de Nélida Piñon, imortal da Academia Brasileira de Letras, como a Patronesse da Revista Poder & Cultura (RPC).
            Dentre tantas figuras intelectuais e acadêmicas do cenário nacional, a escolha de Nélida Piñon como a Patronesse da Revista Poder & Cultura ocorreu sob o duplo signo de um mesmo sentimento compartilhado pelos membros da Comissão Editorial da RPC: o de profundo respeito e admiração tanto por sua marcante trajetória na vida cultural nacional e internacional, quanto pela sua carismática e apaixonante figura pessoal.
Como relatei em discurso proferido na Cátedra José Bonifácio, em 10 de março de 2016, posso dizer que, enquanto professor de História das Américas dos cursos de História e de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em estudos sobre a relação poder e cultura na Ibero-América, eu já conhecia a sua brilhante trajetória no mundo da literatura, das artes e da cultura, sendo as suas obras temas e fontes de discussão com os meus alunos em sala de aula. Afinal, Nélida Piñon, a escritora imortal da Academia Brasileira de Letras, a “Casa de Machado de Assis”, como ela gosta de dizer, publicou mais de 25 romances, dentre eles clássicos como Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo (1961), A Casa da Paixão (1972), A República dos Sonhos (1984), Vozes do Deserto (2004), O aprendiz de Homero (2008), Coração andarilho (2009) e Livro das Horas (2012), dentre muitos outros. Suas obras foram traduzidas em mais de 30 países, contemplando romances, contos, ensaios, discursos, crônicas e memórias. Ficou conhecida como defensora dos direitos humanos durante a ditadura militar e também, mais tarde, dos direitos das mulheres. Em 1996-1997 tornou-se a primeira mulher, em 100 anos, a presidir a Academia Brasileira de Letras, no ano do seu 1º Centenário. Recebeu numerosos prêmios e distinções, entre os quais se destacam: Juan Rulfo (1995), o mais importante da América Latina e do Caribe, concedido pela primeira vez a uma mulher e a um autor de língua portuguesa (1995); o Menéndez Pelayo (2003); o Príncipe de Astúrias (2005); e o Jabuti (2005). Em 2012 foi nomeada Embaixadora Ibero-Americana da Cultura e, em 2015, na qualidade de primeira mulher e brasileira, assumiu a Cátedra José Bonifácio da Universidade de São Paulo[1].
 Foi durante a sua atuação enquanto Catedrática Titular da Cátedra José Bonifácio no ano de 2015, que dois membros da Comissão Editorial da RPC – Quezia Brandão e Wagner Pinheiro Pereira – tiveram a oportunidade excepcional de conhecê-la pessoalmente. Nélida Piñon apresentou uma proposta bastante ousada e ambiciosa em sua proposta de curso: Refletir com os seus alunos “As Matrizes do Fabulário Ibero-Americano”, realizando um percurso que partia das tradições orais das civilizações autóctones das Américas e dos narradores das Conquistas portuguesa e espanhola, passando pela composição literária da nacionalidade brasileira em escritores como José de Alencar e Machado de Assis, por clássicos da literatura mexicana como Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, O Labirinto da Solidão (1950), de Octávio Paz, e A Morte de Artemio Cruz (1962), de Carlos Fuentes, chegando até o Tempo Presente onde nos revela o enigma da criação e da ilusão de sua própria arte, ou nos denuncia as “nebulosas do poder” autoritário através dos romances de ditadores[2].
Por tudo isso, pudemos perceber como a visão artística e intelectual de Nélida Piñon estava em plena sintonia com a área de pesquisa trabalhada pela Revista Poder & Cultura. Afinal, compartilhamos a posição da Imortal ao dizer que: “O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar sua consciência à consciência de seus leitores, sobretudo num país como o Brasil”.[3]
Nós, da Comissão Editorial da Revista Poder & Cultura, esperamos ser dignos do apoio vindo de uma figura tão importante e renomada como Nélida Piñon e prometemos nos esmerarmos para apresentar sempre ao público leitor uma revista de alta qualidade acadêmica.
Para o sucesso da realização desta empreitada, contamos com mais um motivo de orgulho para esta belíssima e especialíssima edição: os autores responsáveis pela autoria de quinze artigos, frutos dos resultados das pesquisas acadêmicas realizadas por jovens historiadores brasileiros, que possibilitam compartilhar com o público leitor um pouco da diversidade temática e do diálogo interdisciplinar que tem caracterizado as abordagens dos trabalhos historiográficos mais recentes. Além disso, a presente edição conta ainda com uma entrevista fascinante do historiador boliviano Antonio Mitre, importante intelectual e acadêmico da América Latina, que foi entrevistado, especialmente para a Revista Poder & Cultura, pela historiadora Priscila Dorella, Professora de História das Américas da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Cabe, por fim, registrar um agradecimento especial a todos os membros do Conselho Consultivo –  uma verdadeira equipe de notáveis do mundo acadêmico – e da Comissão Editorial – Quezia Brandão, Beatriz Moreira da Costa, Danilo de Lima Nunes, Leandro Couto Carreira Ricon, Christiano Britto Monteiro dos Santos, Cristiano José Pereira, Leonardo Montanholi dos Santos e Marco Vallada Lemnonte – pela dedicação e empenho fundamentais na realização dos trabalhos da Revista Poder & Cultura.
Desejo uma boa leitura a todos!

Wagner Pinheiro Pereira
Editor-Chefe da Revista Poder & Cultura


[1] As informações biográficas de Nélida Piñon podem ser encontradas no website da Academia Brasileira de Letras (http://www.academia.org.br/academicos/nelida-pinon) e na reportagem “Nélida Piñon: Um coração andarilho” publicada pela Revista Pesquisa Fapesp, nº 175, setembro de 2010. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/09/02/n%C3%A9lida-pi%C3%B1on-um-cora%C3%A7%C3%A3o-andarilho/
[2] O resultado do trabalho realizado por Nélida Piñon na Cátedra José Bonifácio em 2015 foi publicado em livro: PIÑON, Nélida (Coord.). As Matrizes do Fabulário Ibero-Americano. São Paulo: Edusp, 2016.
[3] Revista Pesquisa Fapesp, nº 175, setembro de 2010, p.7.